CAMPOS BRASILEIROS
Daí uma das melhores obras da literatura nacional, o majestoso livro "Olhai os Lírios do Campo", do saudoso gaúcho Érico Lopes Veríssimo, um dos mais importantes romancistas brasileiros do Século XX, ser instrumento de homenagem a esse Dia das Agricultoras e dos Agricultores, realertando a você, leitora ou leitor, que a Agricultura Familiar também está em 77 de cada 100 propriedades ou empreendimentos rurais.
Olhai os Lírios do Campo foi escrito e
publicado no fim da República Velha ou do final da década de XXX (30) do Século
XX, quando a população brasileira, em sua grande maioria, ainda vivia, convivia
e sobrevivia nestes vastos 'campos', de Sul, em Arroio Chuí, no Rio Grande do Sul,
a Norte, na nascente do Rio Ailã, no Uiramutã, em Roraima; e no extremo Oeste, da nascente do Rio
Moa, em Mâncio Lima, no Acre, a Leste, em Ilha do Sul,
Arquipélago de Martim Vaz, no Vitória, no Espírito Santo.
Apesar dessas majestades, que não são sabiás,
as suas 67 e as suas 77 criaturas, praticamente, nada abocanhavam os dinheiros ou
milhões nacionais, que ficavam em maioríssimos montantes com o Agro, ‘negócio’,
que deveria ser realmente “pop”.
Porém, nos governos do PT e de seus
aliados, esses dinheiros para custeio e financiamento da Agricultura Familiar foram
aumentados para cerca de R$89 milhões, ante os cerca R$525,1 bilhões para o agronegócio. Observou
de o porquê pouca gente do Agro está pop e milhões de pessoas da nossa alimentação
continuarem nos aperreios, apesar das melhorias conquistadas?
No entanto, além desse dia das
agricultoras e dos agricultores, na semana passada ou em 25 de Julho das Pretas
ou Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, e, mais
ainda, da nossa Tereza de Benquela, a data de 25 de julho também é Dia Internacional
da Agricultura Familiar, que nos alimenta longe dos escassos aplausos, até de
quem come.
Porém, a seguir, você lerá um excelente
texto da Secretária Agrária Nacional do PT, Rose Rodrigues, sobre a celebração
da data da Agricultura Familiar:
“‘Celebrar a agricultura familiar é celebrar
quem alimenta o Brasil’
Agricultura familiar responde por 77% de todos os estabelecimentos rurais do Brasil e emprega 67% de todas as pessoas que trabalham no campo
É para
essa gente que o 25 de julho, Dia Internacional da
Agricultura Familiar, existe e precisa ser reconhecido.
Gente que sustentou por décadas a segurança alimentar do país longe dos
holofotes, quase sempre sem crédito, sem estrada e sem o reconhecimento que
merecia.
Celebrar a agricultura familiar não é fazer elogio ao campo. É
afirmar um projeto de país que se decide pela comida na mesa, pela inclusão de
quem sempre foi deixado de fora e pelo cuidado com a terra que herdamos.
O paradoxo que sustenta o país
Os
números contam uma história que parece impossível. Segundo o Censo Agropecuário
do IBGE, a agricultura familiar responde por 77% de todos os
estabelecimentos rurais do Brasil. Quase quatro milhões de
propriedades. E, no entanto, ocupa apenas 23% da terra agrícola do
país. Três em cada quatro produtores dividem entre si menos de
um quarto do território produtivo, enquanto uma minoria de grandes
proprietários controla o resto.
Com
tão pouca terra, seria de esperar que produzisse pouco. Acontece o contrário. A
agricultura familiar emprega 67% de todas as pessoas que trabalham no campo brasileiro,
mais de dez
milhões de trabalhadores e trabalhadoras. E lidera a produção
dos alimentos que efetivamente compõem a dieta do país: 80% da mandioca, quase
metade do café e da banana, uma fatia enorme do leite, do feijão, das frutas e
das hortaliças que abastecem feiras, mercados e escolas.
Aqui é
preciso honestidade, porque ela fortalece o argumento em vez de enfraquecê-lo.
A agricultura familiar não responde pela maior parte do valor da produção
agropecuária. Esse valor é puxado pela soja, pelo milho e pela carne que seguem
para fora.
O que a agricultura familiar domina não é a planilha da
exportação, é a mesa do brasileiro. Produzir, afinal, não é só gerar divisa. Produzir
também é garantir comida no prato, renda no interior e dignidade para milhões
de famílias que, sem esse chão, migrariam para a periferia das grandes cidades.
Resta
então a pergunta: como um setor com tão pouca terra consegue sustentar tanto?
Um modo de produzir, não apenas um setor
A
resposta começa no jeito como essa agricultura funciona. Onde a monocultura
aposta tudo numa só cultura, a agricultura familiar diversifica: planta muitas
coisas no mesmo espaço, aproveita o que a propriedade oferece, encurta a
distância entre quem produz e quem come. Esse desenho, que a Embrapa reconhece
como presente em todos os biomas brasileiros, aproxima naturalmente a
agricultura familiar dos princípios da agroecologia.
E isso
deixou de ser detalhe romântico para virar questão estratégica. Num tempo de
emergência climática, sistemas diversificados são mais resistentes à seca, à
cheia e à quebra de safra do que grandes áreas de cultura única. A agricultura
familiar presta serviços que nenhum balanço contabiliza: cuida da água, mantém
os polinizadores, protege o solo, guarda a biodiversidade.
Não
por acaso a ONU declarou 2019 a 2028 a Década da Agricultura Familiar,
reconhecendo que fortalecer esse modelo é parte da resposta global à crise do
clima e da fome. O Brasil não está seguindo uma moda. Está redescobrindo uma
vocação.
Isso tem rosto, tem nome e tem história
Por trás dos números há pessoas concretas. A
agricultura familiar é feita de assentados da reforma agrária, de comunidades
quilombolas e indígenas, de ribeirinhos e extrativistas, das mulheres que hoje
são maioria no acesso ao microcrédito rural e da juventude que decide ficar no
campo em vez de abandoná-lo. Democratizar o acesso à terra e ao crédito é o que
transforma essa gente de estatística em protagonista.
E é
aqui que a história fica clara, porque nada disso aconteceu por acaso. São
essas famílias que acessam o Pronaf, o Programa Nacional de Fortalecimento da
Agricultura Familiar, que completou trinta anos em 2025. São elas que fornecem
para a merenda das escolas pelo PNAE e que vendem para o poder público pelo
PAA, o Programa de Aquisição de Alimentos. Quando essas políticas funcionam, o
país come. Quando são desmontadas, o país passa fome. Não é retórica, é
experiência vivida.
O
Brasil já saiu do Mapa da Fome da ONU em 2014, depois de mais de uma década de
investimento em agricultura familiar e proteção social. A partir de 2016, com o
desmonte desses programas, o país retrocedeu e voltou ao Mapa da Fome, com mais
de dez milhões de brasileiros sem ter o que comer. Foi preciso reconstruir. O
PAA, que chegou a ter apenas dois milhões de reais em 2022, foi retomado com
quinhentos milhões. O PNAE teve a compra obrigatória da agricultura familiar
ampliada de 30% para 45%. O Plano Safra da Agricultura Familiar alcançou o
recorde de 89 bilhões de reais em 2025 e 2026. E o resultado veio: em 2025 o
Brasil saiu novamente do Mapa da Fome, e o relatório da FAO divulgado neste mês
de julho de 2026 confirmou o país fora dele, com a dieta saudável mais barata
da América Latina.
O
experimento foi feito duas vezes, com o mesmo resultado. Onde há política de
apoio a quem planta comida, a fome recua. Onde ela é abandonada, a fome volta.
Vale reconhecer, sem idealização, que o setor é desigual por dentro: convivem
nele produtores já estruturados e famílias que ainda produzem quase só para o
próprio sustento. Justamente por isso as políticas precisam ser diferentes para
cada realidade, e não desaparecer para todas.
O futuro que se planta agora
Volto
à mesa onde este texto começou. O mesmo café, o mesmo feijão, a mesma mandioca
de sempre, carregam agora um significado que talvez passasse despercebido. Cada
um deles é resultado de uma escolha coletiva sobre que país queremos ser. Um
país que só sabe exportar commodity, ou um país que também garante que ninguém
fique sem comer.
A
agricultura familiar responde a essa pergunta todos os dias. Ela alimenta o
presente e, ao cuidar da terra e da água, cultiva o futuro. Fortalecê-la deixou
de ser uma pauta apenas do campo. É a forma mais concreta de enfrentar a
desigualdade, de manter viva a vida no interior e de garantir que a soberania
do Brasil comece onde ela mais importa, que é na capacidade de alimentar o
próprio povo. Celebrar o 25 de julho é reconhecer quem faz isso com as próprias
mãos, e decidir que não vamos deixar essa gente sozinha de novo.
(*) Secretária Agrária Nacional do Partido dos
Trabalhadores
Fontes
dos dados citados:
Estrutura,
área, emprego e produção por alimento: IBGE, Censo Agropecuário 2017. • Saída e
retorno do Brasil ao Mapa da Fome: FAO/ONU, relatórios SOFI 2025 e 2026. •
Pronaf, PAA, PNAE (ampliação de 30% para 45%) e Plano Safra da Agricultura
Familiar: Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA),
Agência Gov. e Agência Brasil. • Multifuncionalidade, biomas e agroecologia:
Embrapa, portal temático Agricultura Familiar. • Década da Agricultura Familiar
2019–2028: ONU/FAO.
Nota:
o valor do Plano Safra 2025/2026 foi arredondado para R$ 89 bilhões;
recomenda-se conferir a cifra exata no anúncio oficial do MDA antes da
publicação.”
Publicação: ‘Celebrar a agricultura familiar é celebrar quem alimenta o Brasil’ – Partido dos Trabalhadores

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